sábado, 29 de dezembro de 2007

luzazul



Nascem as vozes dos amigos
do negro à luz azul as vozes dos amigos
fazendo de claro o dia da negra voz
que o espanto traz ao peito
os amigos são quietos na sua imensidão quieta
de voz azul de luz azul

o branco claro dos olhos trespassa pela voz
feita tão azul
no peito

e a voz obscura cala às vezes as vozes dos amigos tão azuis
e na obscuridade só o perdão se roga por toda a lentidão
do tempo
pela voz obcura rogam os amigos de olhos brancos
no azul da luz

quando flectem profundamente perto do fogo
têm o plano oblíquo à luz
razam o centro do rubro ao sangue
afastam-se
e voltam

Jorge Fragoso - Dezembro 2007

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Fingindo que há ganchos de astros
nos bolsos das calças
fingindo que há um giroscópio de açúcar
devastando silêncio
num trapézio contraluz
os cones fundidos no eixo do vértice
das ilhas poderosas chamando
o cetim das pernas cosidas às mãos
enquanto se expiram aromas
em aquários de zénite nadir.

Já não tenho as ancas cosidas às palavras
verteram-se as estrelas nas arestas.

Um manto de pele aberta vestiu a noite
levantando-me as saias de groselha
era um fruto degustado em pele
com a textura das amêndoas
estou sentada num astrolábio
vestem-me estrelas brancas
desprendem-se meteoros lácteos
no traçado artístico onde morrem as danças.

Graça Magalhães, 7 Dezembro 2007

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007




descanso as mãos em memórias passadas

acaricio momentos de corpo
voz
paixão
interminável dos lábios
sobre a meia-luz
suave

encontro-a além
da névoa-saudade


Jorge Fragoso, 2007

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

.as caravanas que fazem a viagem nocturna e cabeças de crianças jorradas pelas chuvas frescas.

Néry

domingo, 16 de dezembro de 2007

Sete saias de marfim

Mulheres alumiam-se saltando as válvulas dos quartos
Nos lagos
Cornucópias roxas demorando-se na espuma
Desarrumam-se os olhos
Para comprar as escarpas verdes do vento
Cadeiras adormecendo
Artesões pintando esplanadas de espuma
Elas corriam pelas ruas
Com os jornais metidos na voz
E o cetim dos ombros derramando-se pelas estátuas
Eram breves
Pálidas
Afastando as luas
Para colherem o bronze das nuvens
Tinham a barriga escavada pelas ondas
E os dedos recortados
Sobre uma inocência de veludo
Retocavam as queimaduras dos relógios
Penteavam as ramagens de porcelana
Segurando lamparinas
Caminhavam
Desprendendo lágrimas de verdete
Sobre traves compridas
Com sete saias de marfim respirando a brisa
As casas envelheciam
E elas reconstruíam-se nos charcos de esferovite
Pulsando a beleza acrílica das canoas

Cláudia Borges
in malmequeres os lábios molhados

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

A SEGUIR À CHUVA

a seguir à chuva sobeja irremediavelmente a beleza
a finura lamacenta dos gestos aliada às gotas laminadas

dedilhar as pedras ● de cócoras para o olhar dos outros

e porque intacta se afigura a imagem de ontem em mim
narro-a sobre a impressionante bondade deste retábulo:
três tomates maduros a competirem tamanho entre si
espetados no terceiro dente da forquilha, um e os outros
a sangrarem água por desprendimento ao ciclo vindouro

a beleza vertida pelas temíveis e ferozes mandíbulas:
pão e antídoto – quando cuidadosamente administrada
sugere inconstância violenta dos espinhos que a pele
aglutina, na medida em que o cérebro pastoral os semeia
sem nunca antever a força nodal das sombras que
autenticam o telúrico poder do retábulo em vivência

[mágico ceptro crescido inteiro na palma da mão]

os olhos lacrados ● autorização para rebolar na cama

esperar que termine a santa trovoada debaixo dos lençóis
retocar o retábulo antes de ele mesmo acontecer

a seguir à chuva recuperar os olhos bem secos
para que se mantenha fresco o óleo das imagens na retina
no dia depois dos dias, hoje depois do ontem e anteontem

enaltecer o retábulo ● caminhar limpo entre a tomatada



Porfírio Al Brandão [2007]

Embarco amanhã no guindaste de uvas

Escadotes de mentol perfumando a língua
Doem-me os átomos viajando em cubos de âmbar
Escorrem melancias telecomandadas
Molho os dedos na trovoada
Antes que os príncipes trabalhem nas pestanas
Metáforas cortando aquários incompletos
E os fetos bailando sobre hospitais suspensos
Solto holofotes na confusão de papoilas
Chávenas abraçando limões
E quadros desfeitos sobre o potássio dos ananases
Rádios de pimenta
Dobrando sapatos de orvalho
Enquanto os tectos mortos
Consertam raízes

Reinvento pontes costuradas
Malas desfeitas
E confunde-se o vagão azul
Com a rouquidão curva dos violoncelos
Encharco assobios
Pois eu quero beijar o malabarismo dos peixes
E atirar-me sobre escorregas de amêndoa
Embarco amanhã no guindaste de uvas

Cláudia Borges

in Malmequeres os lábios molhados